Ao homem vil, à mulher vil

Alexander Rodchenko - Gears, 1929

O que você quer, afinal? Casa própria, plano de saúde e TV a cabo – sem tempo pra assistir aos milhares de canais, sacrificando rins pulmão coração e por fim, a alma. Tudo bem porque o plano cobre. Um teto seu na escritura, carro próprio, IPVA criança na escola e no balé e no judô e no inglês pra se tornar o adulto que você não foi. Religião, trabalho voluntário – como se voluntária já não fosse toda vontade de existir. Salvem os bichos, fodam-se os miseráveis – toda a carência e abandono projetada no cachorro estropiado, o pavor do fracasso e da ruína ganha forma no pobre e no feio. Salvem-se todos: os cachorros os gatos os porcos e até as vacas que viram bife no seu prato e você, caro hipócrita. Churrasco, futebol, cigarro e cocaína enquanto pragueja sobre “o crime organizado no País”, “a violência urbana”, “a corrupção é uma vergonha!”. Museu aos finais de semana para admirar aquilo que você não criou; música e cinema para acalentar aquilo que você abandonou. Uma esposa sem opinião sobre nada, inteligente até certo ponto, louca até certo ponto, independente – até certo ponto. Um pequeno universo que o aplauda. Um harém virtual sorridente anódino de pixels e conveniências nas redes sociais. Amor de instagram, sexo de instagram, todo mundo fala e fala ao mesmo tempo e ninguém diz nada. Absolutamente nada. Lançam livros e fazem tanta arte vazia e cheia de pixels e sorrisos mentirosos e todas as partes feias e frágeis estão bem escondidas ali em meio às carnes intocadas ou mal tocadas, ansiosas por algo arrebatador enquanto a mente se encolhe de medo. Ao amor de mentira, ao medo da paixão, trepada de instagram. Casa própria, carro, filhos. TV a cabo. Esposa que o adule e concorde sempre, harém virtual, autorreferências e o eterno blablabla do ego em alta resolução. Um marido como capital, prova de valor pessoal para a mulher clichê competidora que se afoga no ódio de outras mulheres. Todas naufragam no mesmo mar de mazelas.Voluntariado enquanto deixa bem polida alguma parte da engrenagem que trucida aquilo que você acredita salvar quando se presta a ser solidário. Para expurgar parte do egocentrismo devorador de amor verdadeiro. De evolução. Manteremos assim, com alguma compaixão. Compaixão – mas até certo ponto.

Compaixão de instagram.

Uma resposta para “Ao homem vil, à mulher vil”

  1. fernando Disse:

    Belo e horrendo retrato do ser humano moderno-mas-nem-tanto.
    E “eu, que tenho sido vil, literalmente vil, vil no sentido mesquinho e infame da vileza” não pude deixar de enxergar minhas contradições expostas nessas linhas…

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